25/05/2018

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“Uma accasião, em Paris, entrei numa barraca de feira onde se exhibia uma phoca e uma mulher de barbas. A mulher era um homem, de vestido decotado, a phoca era um cão, coberto com a pelle do animal em questão, e nadando num pequeno tanque. Uma coisa sem graça. Quando sahi, o dono da barraca, dizia, apontando-me: «Perguntem a este senhor se vale ou não a pena, vêr estas maravilhas! Senhores, senhores, entrae, entrae!» Não posso explicar o motivo, porque me teria sido desagradável desmentir esse homem. Era sobre sobre esse facto que elle contava. Succede o mesmo com os desilludidos da lua de mel: não querem destruir o sonho dos outros.”

Leão Tolstoi, “A Sonata de Kreutzer”, pág. 47, Guimarães & C.ª Editores, trad. Maria Benedicta Pinho, s/d.

23/05/2018

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Coimbra, 23 de Maio de 1942 – No meio desta desgraçada guerra, toda aço, ferro, bombas, e coisas técnicas onde entra tudo menos uma instintiva e sanguínea vontade de combater, um lampejo de esperança: a notícia nos jornais de que na Austrália, entre a tropas americanas, existe um homem, um índio, que ouve o som do aviões inimigos antes dos aparelhos de escuta!”
Miguel Torga, “Diário II” 3ª ed. Revista, pág. 34, Coimbra Editora, 1960.

20/05/2018

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Lorvão, 20 de Maio de 1944 Como tudo se desatualiza, perde o sentido, se torna anacrónico e monstruoso! Na Idade Média, e mesmo depois, casarões destes, grades destas, ermos destes, eram moradas, atributos e lugares de salvação. A tísica e a brancura de uma monja significavam estigmas de santidade e de triunfo, e a história, a filosofia e a moral só tinham que partir daí para explicar, justificar e louvar. Hoje, cada ser humano enclausurado nestas celas gradeadas, a pagar renda ao Estado, é um condenado à morte por uma sociedade reles, que não pode encontrar em nenhuma consciência ou tribunal um sentimento de defesa.

Miguel Torga, “Diário III”, pág. 51, 1954, Coimbra.

19/05/2018

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Um debate "Animado" (mas não foi a Porto Lazer), no Palácio da Bolsa em 14_05_2018 que quase não foi noticiado. Numa iniciativa da união de freguesia do centro histórico do Porto. Viu-se a indignação dos cada vez menos moradores 'autóctones' contra os despejos derivados desta especulação imobiliária, ganância, e turistificação selvagem...

16/05/2018

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Coimbra, 16 de Maio de 1944
RAÚL BRANDÃO
Ao lado das grandes figuras realizadas, cuja sombra, de tão cerrada, nos arrefece, há uma outra categoria de artistas, que o são deveras, debaixo da copa de quem a gente refresca e medita. Insisto em que se não trata de artistas menores, ou coisa assim. Quando se diz artista, não há escala. Tão grande é, especificamente, Shakespeare como Baudelaire. Apenas um tocava num piano sem fim, e o outro num violino.
Destes homens assim, cujo poder material só vai à gaita feita dum caule de cevada verde, há aqui em Portugal imensos. Raúl Brandão, que é desses, é para mim dos mais atraentes e dos mais fecundos.
A obra realizada em tamanho, em Lusíadas, em Comédia Humana, em Sinfonias, destrói a obra por acabar, sonhada, esboçada, nimbada duma preguiça de promissão. As Berlengas que Brandão no deixou, as maravilhosas e nunca decifradas Berlengas que todos hoje conhecemos, não são as dos Pescadores. São o próprio assombro do artista, deitado nas rochas de Peniche a olhar os brumosos penedos. Um romance articulado da Candidinha talvez fosse eu, sei lá!, um grande livro. Mas não seria tão sugestivo como essa balbuciada Farsa que nos deixou, cósmica, protoplásmica, com portas para todos os horizontes da vida, e sem destino nenhum. Sempre que pego num livro de Raúl Brandão, estremeço. Como não sou capaz de o levar ao fim, como não é capaz de me possuir inteiro, parece-me sempre que toquei no grande corpo humano do autor, informe, mansarrão, aparentemente morto, e onde um raio de luz desencadeava uma tormenta. Já na estante, cada letra do título é ainda um dos seus olhos azuis de pescador, meigos e lancinantes, a contemplar-me.
As suas obras mais falhadas são para mim as melhores. As Memórias, por exemplo. De O Doido e a morte, obra perfeita, a gente ri-se e gosta, certamente. Das Ilhas Desconhecidas, a gente lê e gosta também. Dos Pescadores, a gente relê e gosta mais. Mas das Memórias, do Húmus, dos Pobres e do resto a gente não gosta. Fica com aquela massa imensa cá dentro para ir articulando pela vida fora de seu vagar. Porque uma coisa é um livro falhado e condenado à morte, e outra um livro falhado e condenado à vida. Há lá coisa mais palpitante de seiva, de eternidade, do que certos bosquejos de Raúl Brandão, a arfar como ondas sem vento num mar de emoção!
O grande sonhador não foi capaz de contar uma história direita. Não tinha imaginação romanesca, nem sabia. Mas cada esforço, cada passo para nos dizer a palavra específica sobre uma figura, é um alanceado desespero de ternura e trágica beleza.
Não é preciso que Raúl Brandão, ou qualquer outro artista assim, fique no primeiro lugar da história da literatura. Um primeiro lugar ao lado de Frei Heitor Pinto ou mesmo de Sá de Miranda interessa pouco. Mas já não é o mesmo ficar ao lado da sua própria evidência, tentador como um fruto imaturo.

Miguel Torga, “Diário III”, pp. 43-45, 1954, Coimbra.

12/05/2018

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“(...)
Hoje falarei do Marrão.
Morreu o portador desta alcunha há um bom par de anos nas costas de África, mas ainda não está esquecido. Aliás, os mais simples casos passados há vinte, trinta ou mais anos, contam-se aqui como do tempo que corre. Os antigos têm poucas distracções: não entraram para as fábricas de Gouveia e Moimenta, como os novos, não se dividiram nem se dispersaram, não mudaram de vida. Curtem o seu reumatismo e as suas memórias. Memórias vivas, nunca alteradas, mas apesar de tudo sem aquele fartum de velhas que enfada o ouvinte. Parece-me a mim… Já me tem calhado perguntar, com o devido respeito: Isso passou-se?… E obter de resposta: Deixe-me cá ver: ô! Inda eu não tinha ido prà América; ou já tinha voltado da América; a minha Teresa inda não era nacida… Em resumo, à roda de uns trinta anos. Porém os fins do Marrão são mais recentes. Morreu degredado, comido pelos pretos, constou cá na aldeia. Mas ninguém o chorou, nem a mulher, uma coxa, a única do povo, de modo fino, cauteloso e sabido.
O Marrão foi casado, como se vê, e teve filhos de que hoje só resta um. É torto, como o pai, mas ainda não tem cadastro oficial. É bruto, mal falante e sombrio, a prometer sempre que há-de vir a morrer degredado lá por coisas a que o obriguem… Serão ditos do vinho, ou o sangue maligno do pai que ainda bula nele. Porém, os companheiros acomodam-no e ele não vai além das promessas. A vida do Marrão era digna de ser contada. Mas por quem? Por algum dos seus parelhas da serra. Pelo Maurício, pastor que bastas vezes o defrontou, homem firme, incapaz de dar costas a outro. Mas o Maurício, que tantas referências lhe faz, remata o assunto sempre mais ou menos deste jeito: Foi um miserável, um desgraçado! Já pagou e nós inda estamos a dever.
(…) “

Irene Lisboa, “Crónicas da Serra”, pp.12-13, Livraria Bertrand, Lisboa, s/d.

10/05/2018

Pormenores de "Sob o Olhar de Neptuno"...






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Coimbra, 10 de Maio de 1939 Não, não trouxe da aldeia a paz do arado que trazem todos. Conheço alguns que investigam, medicam, litigam, professam, com a serenidade e a paz com que os pais abrem regos de batata na terra. Eu não. Eu trouxe de lá a angústia, tortura, crítica negativa a tudo. A razão não a sei. Talvez sina, talvez desilusão crónica que se me colou à pele ao nascer...

Miguel Torga, “Diário I”, pág. 96 , 1941, Coimbra.

29/04/2018

Novidade das 50kg...



Sob o Olhar de Neptuno de Manuel de Freitas
Desenho da capa de Ângelo Ferreira de Sousa
Edições 50kg, Porto, Abril de 2018.
P.V.P: € 6,00
250 Exemplares
ISBN: 978-989-99345-2-8


Todos os exemplares foram compostos em tipografia de caracteres móveis e uma zincogravura reproduz a capa com apontamentos em folha de ouro.

28/04/2018

Inscrições Abertas 2...


Curso de Práticas de “Secreto” para Encenadores e Coreógrafos.

     Após o estrondoso sucesso do nosso primeiro curso designado por «Literatura para Vitrinistas» (ver + aqui). Dá-mos início à abertura das inscrições para este novo curso.
Fomos para isso motivados pelas imensas incongruências, incoerências e erros históricos que constantemente se encontram nos chamados filmes de época, ou nas peças teatrais, que também retractando uma determinada época, são levadas, hoje, à boca de cena. A parca ou mesmo a falta de pesquisa por parte de quem pretende recriar com rigor histórico determinado ambiente ou situação passada - leva-nos constantemente a ver, nos ditos filmes e peças de época, erros de cronologia que mancham indelevelmente o suposto rigor que deveriam atender. Constantemente se vê, por exemplo, fulano de tal, numa cena passada no século XVIII, sentado à sua secretária que até pode ser de um estilo congruente, mas emoldurado por uma biblioteca cheia de encadernações que só apareceriam cem ou duzentos anos mais tarde. Vê-se tipografias e ferros de Arte Nova num filme que pretende passar-se no século XVII. Pastas feitas com balancés eléctricos, ou uma encadernação meia amador francesa nas mãos de um devoto da Idade Média… Pensa-se que basta uma encadernação de pele gasta, para dar aquele ar antigo, e usado e pouco mais é necessário para se pintar o retrato há época… Não basta, é claro!
Mas há outras subtilezas que são ainda mais comuns. Noutro dia vimos um filme, que por consideração não o vamos nomear, mas que pretendia com rigor retractar um conflito no século XIX, uma alta patente militar é interrompido por um subalterno com um requerimento interno com ordens e instruções estratégicas. Como é que é apresentado essa missiva? Num sobrescrito quadrilongo e dobrado em harmónio, ou seja, um formato comercial. Quando se sabe que a forma oficial dos requerimentos, nessa altura, eram o duma dobragem em quatro partes iguais com envelopes quadrados destinados para esse fim. São minudências isto? São minudências ouvir chamar, numa peça histórica, «Sua Alteza» à rainha quando se sabe que é um tratamento exclusivo para os seus filhos enquanto principes e infantes? Sei que são situações que passam ao lado de muitos. Mas queremos rigor histórico ou não? Poderiamos falar de muitos mais casos, de expressões de trato usadas incorrectamente, uma coisa simples como o uso de cores de lacre para selar os invólucros e que representam diferentes estados de espírito, o negro para uma carta de luto, o vermelho para uma carta mais intima. Mas não burocrática ou oficial como se vê muitas vezes representado. Sem falar na joalharia ou nas coroas que são sempre símbolos representando a sua determinada casta. A coroa de um duque é tão diferente da dum conde e por aí fora até à dum rei ou a de um imperador que é bem diferente da dum rei. São cuidados que se podem aplicar até na manufactura das coroas de papel de um teatrinho infantil.
Por estas razões. E para orientar os interessados na manutenção destes rigores que darão uma maior verosimilhança às suas recriações históricas. Decidimos elaborar este curso que terá como base a famosíssima obra, que é em si um grande compêndio, da segunda metade do século XIX – o “O Novo Secretário Universal Comercial Portuguez”. Os destinatários são os que com o título do curso são indicados, porém não abrindo ao público em geral porque o consideramos abstracto fazemos uma excepção, com uma pequena quota, (não sejam assim com as quotas) para estudantes de estudos feministas e do género, onde nesta obra poderão encontrar imenso material e “assumptos” acerca do papel da mulher, ou a inexistência deste, nas sociedades da altura. Sendo as extrapolações para a sociedade actual da vossa responsabilidade, ou como se diz nos direitos de antena: da responsabilidade dos intervenientes.
Estão abertas as Inscrições. Boa sorte!

RAR, 28 de Abril de 2018.


Das formulas de tratamentos

Quando nas regras e observações geraes ácerca do estylo epistolar, ponderámos, que era necessario attender á qualidade e cathegoria da pessoa a quem se escreve, dissemol-o, porque o estylo deve ser adequado aos predicados d’essas pessoas. Agora porèm, que vamos enumerar succintamente quaes os tratamentos devidos ás differentes jerarchias, que constituem a sociedade (alguns dos quaes sómente se acham estabelecidos pelo uso geral que d’elles se faz) cabe-nos recommendar a maior circumspecção no emprego d’esses tratamentos, para que de simellhante falta não nasça algum resentimento.
Assim é que quando a carta ou requerimento fôr feito:
Ao papa, pôr-se-ha no alto = Santissimo Padre.
Ao rei = Senhor.
Á rainha = Senhora.
Ao principe, princeza, infante ou infanta1 = Serenissimo Senhor ou Serenissima Senhora.
Ao patriarcha = Eminentissimo e Reverendissimo Senhor.
Aos bispos, arcebispos e principaes da Sé = Excellentissimo Senhor.
Ao vigario geral = O mesmo tratamento.
Ao esmoler mór = O mesmo tratamento.
Aos monsenhores = Ill.mo Reverendissimo Senhor.
Aos barões, condes, marquezes e duques = Ill.mo Excellentissimo Senhor.
Aos pares do reino = O mesmo tratamento.
Aos conselheiros de estado = O mesmo tratamento.
Ao presidente do tribunal da relação = O mesmo tratamento.
Ao procurador geral da corôa = O mesmo tratamento.
Ao procurador regio = O mesmo tratamento.
Ao procurador geral da fazenda = O mesmo tratamento.
Aos governadores civis dos districtos do reino = Ill.mo Excellentissimo Senhor.
Ao presidente da camara dos deputados = O mesmo tratamento.
Ao presidente da camara municipal = O mesmo tratamento.
Ao presidente da junta do credito publico = O mesmo tratamento.
Aos brigadeiros, marechaes de campo, tenentes generaes, marechaes do exercito = O mesmo tratamento.
Aos chefes de divisão, chefes de esquadra, vice-almirantes e almirantes = O mesmo tratamento.
A todos o mais individuos, que occupam uma posição decente na sociedade, é costume pôr-se no alto da carta Ill.mo Senhor e dar-se o tratamento de Senhoria. O vossa mercê sôa mal hoje ao ouvido, que se o empregarmos escrevendo mesmo a pessoas a quem não competisse outro tratamento, esta incuria beliscaria o melindre de muitos, ou ao menos, a hilaridade de todos.
Ás senhoras competem os respectivos tratamentos de seus paes, maridos, etc., e sempre Dom; no entanto é moda dar-se Excellencia a todas, mui particularmente nos bailes e saráos. Aquelle, que infringisse hoje este requintado preceito de urbanidade, passaria por grosseiro e descortez.
Quando a pessoa a quem escrevemos fôr de consideração e respeito, deveremos pôr, bem no alto da carta, o tratamento que lhe tocar, e depois começar a primeira regra a dois terços, pouco mais ou menos, da altura do papel.
Nas correspondencias familiares não se exige esta formalidade.


Corpo da Carta

Seria grande incivilidade, especialmente em uma carta de ceremonia, usar de breves, raspar palavas, ou pôr entrelinhas.
A polidez tambem exige, que se deixe á esquerda do papel uma margem larga em branco. Todavia nas cartas familiares, ou de egual para egual, é dispensavel esta formalidade.
No corpo da carta deve usar-se sem affectação do titulo ou tratamento devido á pessoa a quem se escreve.
Assim é que diremos:
Ao papa – Vossa Santidade.
Ao rei e à rainha – Vossa Magestade.
Ao patriarcha – Vossa Eminencia.
Aos bispos, arcebispos, fidalgos, titulares, pares do reino, etc. – Vossa Excellencia.
Ás mais pessoas, como atraz dito – Vossa Senhoria.
Nas cartas de formalidade e ceremonia devem evitar-se as interrogações; mas se as fizermos será sempre de um modo respeitoso.


Finais das Cartas

Como são muitas e variadas as maneiras de rematar uma carta, transcreveremos aqui, para maior facilidade, as formulas mais usadas, em cujo emprego (escusado seria repetil-o) devemos sempre ter em vista quaes as relações que temos com a pessoa a que nos dirigimos:

Sou com o mais profundo respeito

De V. Excellencia
Attento venerador e criado.


Digne-se V. Excellencia receber as protestações e respeito de quem tem a honra de ser

De V. Excellencia
Subdito fiel e respeitoso.


Sou com todo o respeito e acatamento

De V. Senhoria
Attento venerador.


Aproveito esta ocasião para repetir mais uma vez que sou

De V. Excellencia
O mais attento venerador.


Tenho a honra de confessar que sou

De V. Excellencia
Muito venerador e criado.


Sou com toda a consideração

De V. Senhoria
Respeitoso admirador e
affectuoso criado.


Espero que V. Excellencia não duvidará nunca da consideração e respeito com que sou

De V. Excellencia
Muito humilde criado.


Digne-se V. Excellencia receber os respeitosos cumprimentos, de quem tem a honra de assignar-se

De V. Excellencia, etc.


Receba V. Senhoria, com a sincera expressão do meu reconhecimento, as protestações de respeito e acatamento com que

De V. Senhoria
Sou com a mais alta consideração
De V. Excellencia, etc.


Nas correspondências familiares usaremos das seguintes formulas:

Acredita que sou e serei eternamente
Teu amigo do coração.

Adeus, meu charo, conta sempre com a sincera amisade e verdadeira estima do

Teu fiel amigo.


Recebe com as expressões de amizade, que te envio, mil saudades d’este

Teu amigo sincero


podes ficar certo, que a minha amisade nunca terá quebra, e que sou e serei sempre

Teu amigo, etc.

Para se empregar com acerto qualquer d’estas formulas, diremos que a palavra reconhecimento é a mais propria quando se escreve a um bemfeitor; que aos superiores devemos respeito; reverencia aos paes e aos mestres; e consideração áquelles, que gozam da estima publica pelas virtudes e ponderosos serviços.
Os paes, escrevendo aos filhos, acabam ordinariamente dizendo:
Teu pae affectuoso e amigo.
Teu pae e bem sincero amigo.
Teu pae e unico amigo.
Teu pae muito extremoso.
Ou tua mãe, etc.

Os filhos, porém, deverão usar de fórmulas respeitosas, como por exemplo:
D’este seu filho
Muito obediente e respeitoso.

Sou com a mais profunda veneração, meu querido pae (ou mãe)
Seu filho (ou filha) muito affectuoso (ou affectuosa)

Nas cartas que forem dirigidas a pessoas de respeito e consideração, nunca se accrescentarão post-scriptos.
Como nas correspondencias das confrarias e associações se costuma usar das mesmas formulas, que nas publicas ou officiaes, diremos qual é a praxe seguida n’estas, afim de se poderem empregar quando fôr necessario.
No alto do officio põe-se o tratamento devido á pessoa; por exemplo: Ill.mo e Ex.mo Sr., e no fim escreve-se em regra separada:
Deus guarde a V… (Segue-se a data); logo em seguimento, e n’outra linha, começando da extrema esquerda do papel, pôr-se-ha:
Ill.mo Ex.mo Sr. (o nome ou titulo): e bem no fim do papel a assignatura.
N. B. É signal de respeito pôr n’uma só regra o nome todo da pessoa a quem se officia; bem como deixar um grande espaço entre este e a assignatura.”

M.A.S. (org), “Novo Secretario Universal Comercial Portuguez – ou methodo de escrever toda a especie de cartas”, pp. 16-25, Livraria J. J. Bordalo, Lisboa, 1874.

1Não é erro escrever infante ou infanta, porque temos boas auctoridades tanto para uma como para outra palavra.