20/08/2016

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     um homem com uma dor
é muito mais elegante
     caminha assim de lado
como se chegando atrasado
     andasse mais adiante

carrega o peso da dor
     como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
     ou coisa que os valha

ópios édens analgésicos
     não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
     sofrer vai ser minha última obra


Paulo Leminski, “Toda a Poesia”, pág. 284, Companhia das Letras, São Paulo, 2013.




o que passou passou?

     Antigamente se morria.
1907, digamos, aquilo sim
     é que era morrer.
Morria gente todo o dia,
     e morria com muito prazer,
já que todo o mundo sabia
     que o Juízo, afinal, viria,
e todo mundo ia renascer.
     Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
     E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
     Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
     lá se ia o nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
     Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
     uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
     O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
     Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
     que deixava aquilo mais ou menos.
Tinham coisas que matavam na certa.
     Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
     Tinha coisas que tem que morrer,
tinha coisas que tem que matar.
     A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
     Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
     a não ser pegar pneumonia,
deixar tudo para os filhos
     e virar fotografia?
Ninguém vivia pra sempre.
     Afinal a vida é um upa.
Não deu para ir mais além.
     Mas ninguém tem culpa.
Quem mandou não ser devoto
     de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
     O diabo anda solto.
Aqui se faz aqui se paga.
     Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
     Não tem o que reclamar.
Agora, vamos ao testamento.
     Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
     Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
     a ciência da eternidade
inventou a criônica.
     Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.


Paulo Leminski, “Toda a Poesia”, pp. 287-8, Companhia das Letras, São Paulo, 2013.

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